[ ▸ ] Ikiru (1952)

a urgência de existir antes que o tempo acabe

“é preciso morrer para começar a viver?” foi essa a pergunta que ficou martelando na minha cabeça quando o filme terminou. Ikiru, de Akira Kurosawa, não é apenas sobre um homem prestes a morrer — é sobre alguém que finalmente desperta. e isso, pra mim, é de uma beleza devastadora.

sua vida invisível

Kanji Watanabe é um homem comum. servidor público, engolido pela rotina, pelos papéis, pelas pilhas de processos que nunca mudam nada, e que muitas vezes são vistos com desdém pelos próprios funcionários. ele existe. ele cumpre a função designada. mas ele não vive.

o diagnóstico de uma doença terminal não entrega a ele um milagre, entrega tempo. uma contagem regressiva. um tempo que ele nunca havia notado como valioso. e com esse tempo, vêm o silêncio, a urgência, o olhar para dentro — e a inevitável pergunta: o que fiz da minha existência até agora?

o despertar através do olhar de outro

no meio da crise silenciosa que Watanabe vive, aparece Toyo Odagiri, uma jovem colega de trabalho que pede demissão, cansada da monotonia. ela não tem todas as respostas, mas tem algo que ele perdeu: vontade e esperança de viver. ela fala rápido, se mexe, ri, quer mudar de emprego. e depois, com os olhos brilhando, conta a ele que foi trabalhar numa fábrica de brinquedos — e mostra o que faz: coelhinhos de pelúcia.


“sabe por que eu gosto disso? porque essas crianças vão segurar isso, vão dormir com isso… eu estou fazendo alguma coisa que serve pra alguém.”

naquele momento, algo em Watanabe se move. Toyo não ensina nada diretamente. ela apenas vive a própria vida com leveza e sentido, e só isso já é suficiente pra tocar alguém que havia se esquecido do que era estar desperto no próprio caminho. isso reacende nele um senso de direção. ela inspira como quem, sem querer, toca algo que estava completamente adormecido. porque Toyo está presente na própria vida. e essa presença é, de forma quase silenciosa, deliberadamente contagiante pra quem está ausente de si mesmo há tanto tempo.

a escolha de deixar algo atrás (spoiler)

a forma como Watanabe escolhe viver o resto de sua vida não é grandiosa. não é espetacular. não tem aplausos — e, em muitos momentos, tampouco tem apoio. é pequena. mas é inteira. ele quer construir um parquinho para as crianças. e faz isso com a força de quem entendeu que, no fim, o que fica são os gestos que cuidaram de alguém. é bonito demais porque é simples. e é justamente por isso que dói. Não porque é triste, mas porque é muito real.

a cadeira vazia depois que a vida passa

um dos momentos que mais me tocou foi depois da morte inevitável de Watanabe. a mesa, os colegas, as tentativas de entender “o que houve com ele”. e ali, o vazio que ele deixou era também o espaço que ele só passou a ocupar quando escolheu existir com verdade. não era sobre transformar o mundo. era sobre interferir delicadamente num pedaço dele — e fazer isso com consciência e entrega.

────୨ৎ────

Ikiru é o filme que mais me remete e mais me fez pensar a respeito da filosofia de vida na qual escrevi, sobre viver uma vida pequena, mas inteira. às vezes, o que parece pouco para o mundo é exatamente o suficiente pra alma.

Watanabe é um personagem que eventualmente ensina que viver não é acumular dias, mas imbuir cada gesto de intenção verdadeira. que o que resta de nós são as marcas invisíveis que deixamos nos outros. que só morremos quando nossa presença se apaga da memória de quem amou nosso existir. deixar uma marca pode ser algo tão singelo quanto um balanço num parquinho. e viver, de verdade, talvez seja isso: fazer com o tempo o melhor que se pode, e com todo o coração, mesmo que ninguém perceba ou veja valor nisso.

afinal, o que isso diz sobre nós? será que é preciso um estalo, um choque de realidade, pra começarmos a viver? Ikiru é um filme silencioso, lento, antigo. mas talvez por isso ele fale tão fundo. porque ele não tenta nos convencer de nada. ele só nos mostra.

recomendo fortemente esse filme, especialmente se, em algum momento, esse tipo de reflexão já pousou na sua cabeça. às vezes, só isso basta pra gente começar a ver a vida com outros olhos.

Tags: | | |

Sobre o Autor

0 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *