[ ▸ ] em busca do éter: o silêncio adolescente de All About Lily Chou-Chou
All about Lily Chou-Chou é um dos filmes que talvez eu me estenda falando sobre já que é uma obra importantíssima pra mim, tive a oportunidade de visitar a cidade de Ashikaga onde foi gravado e foi um dos primeiros filmes coming-of-age experimentais que eu assisti.
“Lilyholic”

em 12 de abril de 2000, surgiu na internet um site chamado “Lilyholic”. ele reunia imagens e artigos diversos sobre uma misteriosa estrela do pop chamada Lily Chou-Chou — incluindo até uma suposta notícia sobre um assassinato ocorrido durante um de seus shows. além desse conteúdo editorial, o site também contava com um fórum onde fãs da cantora podiam trocar mensagens. com o tempo, essa comunidade cresceu, e o espaço virtual se transformou num ponto de encontro para admiradores da artista. então, de repente esse site foi encerrado.
a verdade é que Lily Chou-Chou nunca existiu de fato. ela foi uma criação do cineasta Shunji Iwai. as músicas lançadas sob seu nome foram compostas por um colaborador de Iwai, e o próprio diretor foi o responsável por manter o site — inclusive participando ativamente do fórum, assumindo identidades fictícias e conduzindo uma narrativa por meio da interação com os demais usuários. no entanto os outros participantes eram pessoas reais que acabaram, sem saber, envolvidos nesse experimento de narrativa transmídia que dissolvia as fronteiras entre o real e o imaginário. e vamos ser sinceros? no inicio da era da internet era bem difícil discernir uma coisa da outra.
o projeto culminou no filme All About Lily Chou-Chou produzido em 2001, que conta a história de adolescentes alienados, fãs dessa popstar fictícia. a obra na prática é uma adaptação da experiência criada dentro desse site.

o filme é quase uma colagem de sensações. não segue uma estrutura tradicional. tem mais ruído do que diálogos, mais atmosfera do que enredo. e isso é parte da força e charme desse filme. a narrativa gira em torno de adolescentes na faixa de seus 14 anos lidando com bullying, alienação, abusos e um vazio existencial que ecoa nas entrelinhas. mergulha nas sombras da adolescência através da relação entre Yūichi Hasumi e Shūsuke Hoshino — dois colegas de escola que, em um primeiro momento compartilham uma amizade sólida, mas essa conexão é abruptamente rompida dando lugar a um vínculo carregado de violência e opressão. a amizade se dissolve e o que resta é uma dinâmica marcada por abusos e basicamente destruição. essa transformação acontece dentro de uma estrutura temporal não linear que o filme traz, contrastando as diferenças entre os dois personagens, que são desenvolvidas ao longo da historia — a obra salta entre lembranças e fragmentos, criando uma atmosfera quase onírica.

a narrativa flui como uma sequência de sonhos entrecortados, onde as imagens surgem e desaparecem como se estivéssemos acordando e adormecendo repetidamente. esse modo de contar a história gera uma sensação de nostalgia estranha que às vezes é sufocante. e quando nos damos conta do que o filme quer mostrar, o impacto é duro: ele nos conduz diretamente para os pesadelos diários desses personagens. não existe um distanciamento, é um retrato cru de adolescentes perdidos em realidades cruéis e plausíveis. são vidas engolidas por abusos e solidão, por uma sociedade que falha em oferecer direção. o que se desenrola é o resultado de uma dor cultivada em silêncio, de uma geração sem perspectivas, tentando encontrar alívio em meio ao escuro. cada gesto de violência parece vir de uma tentativa de respirar e de buscar, mesmo que inconscientemente, o ether que a música de Lily simboliza: algo puro, que acolhe e dá sentido.
a importância de Lily e o ether
a música da enigmática cantora Lily Chou-Chou surge como um refúgio etéreo, quase espiritual. para muitos dos personagens, ela é o único lugar que se sentem seguros. Lily não é apenas uma cantora — ela é uma presença, quase uma entidade pra eles. quando se é adolescente a música tem um papel crucial no desenvolvimento, é quase vital. todos, ou boa parte dos adultos de hoje devem entender como era ser fã de algo nessa fase. Lily consegue canalizar a solidão, a tristeza e o desespero dos personagens. existe algo que eles chamam de ether, uma espécie de energia sutil que a música dela evoca, como se ela fosse capaz de tocar uma parte da alma que ninguém e nada mais alcança.
na cosmologia aristotélica, o éter era o quinto elemento, além da terra, fogo, água e ar. ele era considerado a substância celestial, imutável, que preenchia o universo acima da esfera da lua, um tipo de matéria divina que compunha os corpos celestes, associados à harmonia, à perfeição e ao eterno… e mesmo sendo uma figura distante e inalcançável, os personagens a têm como abrigo. ao longo do filme você passa a entender o poder, a única fuga de toda essa angustia está nela. talvez porque, em um mundo onde ninguém escuta, escutar uma voz que compreende já seja mais do que suficiente.
o filme também toca em algo que hoje parece ainda mais atual: o uso da internet como espaço de confissão, fuga e identidade. em fóruns anônimos, os personagens expõem suas dores que jamais conseguiriam dizer em voz alta. o que mais me marca em Lily Chou-Chou é o modo como ele trata a solidão como um murmúrio constante, que paira sobre cada imagem, cada movimento de câmera, cada som e diálogos abafados. essa solidão não se dá apenas pela ausência de conexões entre os personagens, mas pela ausência do próprio ato de escutar. os adolescentes do filme estão cercados de pessoas, mas ninguém realmente os enxerga, cada um deles vive preso numa bolha interna, tentando sufocar um incômodo que não sabe nem como nomear.

Noburu Shinoda (diretor fotográfico) junto com Iwai fizeram um trabalho excepcional ao alternar entre estilos de gravação. isso traz o espectador pra dentro de uma cinematografia que mistura gravações cotidianas, feita casualmente por um adolescente vivendo sua vida enquanto bombardeia a tela com mensagens que vomitam os sentimentos reprimidos que os personagens discutem entre si nos fóruns. o filme é pura arte visual e fotográfica, a direção é impressionante, algo comum no cinema japonês dos anos 90 e 00.


a trilha sonora: entre o etéreo e o visceral
muito tempo antes do lançamento oficial do filme, All About Lily Chou-Chou já existia como um projeto musical (dentro daquele anteriormente citado site experimental de Iwai). o universo da Lily foi crescendo em camadas: fóruns, textos, e finalmente, as músicas.
“kokyū“


lançado em 17 de outubro de 2001, kokyū (呼吸, que significa “respiração” em japonês) é o álbum de estreia de Lily Chou-Chou. são 9 faixas que te puxam pra dentro da alma dessa enigmática personagem, com a voz de Salyu (Ayako Ueda, uma estrela japonesa que era novata na época). as letras que foram escritas pelo próprio Shunji Iwai e Takeshi Kobayashi (o mestre da produção), misturam melancolia e esperança. “arabesque”, cantada no dialeto okinawense, parece um canto vindo de ilhas distantes, enquanto “tobenai tsubasa” (飛べない翼 “asas que não podem voar”) fala de sonhos que não decolam. é o tipo de som que te faz sentir um pedaço do o que os personagens desse filme sentem: um vazio cheio de beleza.



“arabesque”: a experiência completa do filme
a trilha sonora All About Lily Chou-Chou Original Soundtrack [Arabesque], também de 2001, é um universo maior. com 18 faixas ela não se limita a Lily. tem as canções dela, como “arabesque”, que dá nome ao álbum, mas também instrumentais incríveis de Takeshi Kobayashi e versões de Claude Debussy, como “clair de lune” (famosíssima peça de piano da suite bergamasque que é puro suspiro melancólico) e “arabesque No. 1”. quem dá vida a essas peças clássicas é Yui Makino, uma pianista e cantora que adiciona um toque de delicadeza atemporal. a trilha mistura o pop etéreo de Lily com a sofisticação clássica de Debussy, criando uma atmosfera que embala cada emoção do filme, do desespero à esperança.


All About Lily Chou-Chou é um filme de sensações e existe algo de muito humano em atravessar uma história que não nos explica tudo, mas nos faz sentir com profundidade.
a trilha sonora, especialmente a música “arabesque”, funciona como uma espécie de fio invisível que costura tudo, a solidão, a busca por sentido, o desejo de ser ouvido… assim como o silêncio do campo que pude visitar em Ashikaga, as notas da trilha ecoam mesmo depois que tudo termina. no fim, é disso que se trata: encontrar, em meio ao caos e à incompreensão, um espaço de respiro e alivio. pode ser uma música, um lugar, um filme. algo que nos lembre que mesmo quando o mundo parece surdo, ainda existem sussurros e ruídos que são capazes de nos alcançar.
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