[ ▸ ] Autumn Sonata: amar alguém que não te viu

existe um silêncio específico entre mães e filhas que nunca disseram tudo. um silêncio tenso e fino como vidro, prestes a rachar. Ingmar Bergman entendeu isso como poucos, e em Autumn Sonata ele não apenas mostra esse silêncio, ele faz a gente habitá-lo. o filme é essencialmente um duelo íntimo e não no sentido teatral, mas emocional. acontece quase que inteiramente dentro de uma só casa. toda a gravação, tonalidade quente, ambiente iluminado, quase confortável… mas essa “calidez” não parece vir de acolhimento e sim de uma intensificação emocional quando tudo fica a flor da pele. é como se a presença da mãe acendesse todas as feridas que estavam adormecidas. o amarelo, o dourado e os tons quentes não aquecem… soa como uma nostalgia fresca dentro de mim, memórias que não esfriaram, que não foram processadas, vivido como a luz.

Charlotte (Ingrid Bergman) é uma pianista renomada, acostumada a receber aplausos e lidar com ausências. é uma mulher cheia de si, que vive pra si mesma, é talentosa, mas uma pessoa muito emocionalmente distante. alguém que escolheu a arte e a carreira como refúgio ou talvez até como fuga. é uma mulher que claramente teve que se endurecer pra existir no mundo da música, num meio completamente exigente e provavelmente pouco acolhedor com mulheres. e talvez, como desculpa pra isso, ela tenha aprendido a colocar tudo — inclusive os filhos — em segundo plano. como se precisasse negar a maternidade pra conseguir continuar sendo uma grande artista.

Charlotte é o tipo de mulher que o mundo todo aplaude. tem uma forte presença, quase impecável, aquela profissional que poucos conseguem listar defeitos, que aprendeu a existir em cena, no palco, nas viagens, nas entrevistas… mas que nunca soube permanecer e se fazer presente onde mais se precisava dela: em casa, seu lar. silenciando completamente suas filhas. talvez não por maldade, mas por uma fuga incessante dentro de si mesma. ela usou a música como abrigo, como desculpa e como armadura por toda a sua vida, e talvez nem perceba o quanto feriu. ou talvez perceba até demais ao ponto de não conseguir tocar esse arrependimento e olhar pra si sem definhar por dentro. há algo de profundamente trágico em assistir alguém que ama mas não sabe como… que pede carinho, mas não dá espaço pra dor alheia. Charlotte não é necessariamente cruel, ela é cega. e nessa cegueira, arrasta consigo uma filha que aprendeu a viver calada, aprendeu apenas a aceitar, reprimir e não impor. tudo nela gira em torno de si mesma, do que ela sente, do que ela sofreu, do que ela precisa. e esse comportamento vem de um vazio que parece impreenchível. 

tem uma cena em que ela diz que está cansada de representar o papel de “mãe exemplar” quando tudo dentro dela está quebrado. é um dos poucos momentos em que ela se mostra frágil.

Eva, interpretada por Liv Ullmann (também atuando em Persona, outra obra prima) é o retrato de quem passou a vida esperando. esperando receber amor, esperando ser vista, esperando uma explicação que nunca veio. e o mais devastador é que mesmo adulta, ela ainda se curva emocionalmente diante da mãe. há uma cena em que ela se oferece para tocar piano, como se dissesse: “olha pra mim. me escuta.” mas quando Charlotte toca em seguida, com mais técnica, mais brilhantemente, tudo volta ao mesmo lugar: o abismo de quem nunca foi e nunca será suficiente. ela cuida do marido Viktor (com pouco tempo de tela mas não menos importante), cuida da irmã doente, cuida de tudo que a mãe não cuidou. há uma doçura nela, mas também uma dor profunda e acumulada como poeira nos cantos da casa e em seu coração ferido. quando Charlotte chega, Eva tenta sorrir, tenta se mostrar acolhedora, mas seus olhos entregam a esperança tímida de que talvez desta vez seja diferente.

Eva representa essa figura que muitos reconhecem: a pessoa que passou a vida inteira tentando merecer o afeto de alguém incapaz de oferecê-lo. onde a fonte é nitidamente escassa, mas a busca eternamente continua. Eva é feita de palavras que nunca couberam na boca. passou a vida pedindo amor sem dizer uma única vez que estava pedindo. em cada gesto, um esforço contido pra ser notada, como quem aprende a se fazer pequena pra caber. quando a mãe retorna, ela não se vinga… ela acolhe. oferece cama, oferece chá, oferece a si mesma como se ainda fosse possível reconstruir o que nunca foi construído. mas por trás da delicadeza há uma amargura enraizada. não uma raiva violenta, mas uma raiva triste, de quem esperou tempo demais, de quem lida com as consequências de ter sido negligenciada. Eva não quer machucar, ela quer tentar entender. quer saber por que doeu tanto crescer na ausência de alguém que estava viva. porque amar alguém que nunca te viu é como gritar com alguém num sonho e a voz não sai, mas a dor permanece ali.

a filha mais nova, Helena, é uma presença quase fantasmagórica no filme. ela tem uma deficiência física e mental, e vive sob os cuidados de Eva, numa espécie de quarto à parte, isolado, quase fora do mundo. sua existência é marcada pela fragilidade, pelo abandono e, acima de tudo, pelo esquecimento materno. Charlotte, quando chega à casa, não sabe e muito menos espera que Eva trouxe Helena pra morar com ela. a reação de Charlotte ao reencontro com Helena é desconfortável, constrangida e muito fria. ela tenta sorrir, tenta tocar nela, mas é visível o incômodo… como se aquela filha revelasse algo que ela passou a vida tentando não olhar. não por desprezo direto, mas por incapacidade de lidar com o sofrimento que não pode controlar nem moldar.

essa rejeição é especialmente cruel porque não acontece de forma verbal e explosiva, é silenciosa. Charlotte nunca diz que não ama Helena, porém tudo em seu comportamento mostra que não sabe o que fazer com ela, que preferiria que Helena permanecesse fora de seu campo de vista, fora de sua memória. e é aí que entra Eva de novo, como aquela que recolhe o que a mãe deixou para trás. ela assume o cuidado e cuidar de Helena parece ser pra Eva, tanto um ato de amor quanto uma tentativa de reparar o que a mãe não fez. como se dissesse: “se você não conseguiu amar, eu vou amar por nós duas.” Helena então vira símbolo do que foi deixado de lado, o elo quebrado. e sua presença silenciosa reforça o contraste brutal entre as duas irmãs. uma que sofreu com a ausência emocional, e outra com a ausência total. nenhuma das duas foi vista de fato pela mãe.

há um ponto de virada numa das cenas mais intensas do filme, onde Eva finalmente explode e ela fala sobre tudo. a sua dor, o abandono, a vergonha de sua própria existência, a inveja que desenvolveu da sua mãe por ter a feito acreditar que nunca seria tão boa quanto ela. é um desabafo cru, quase infantil na forma como emerge mas esse é justamente o ponto: ela ainda fala como aquela criança que nunca foi ouvida. e mesmo assim conseguimos ver que há um amor ali, um amor completamente exausto.
Eva representa essa figura que muitas mulheres reconhecem: a menina que passou a vida inteira tentando merecer o afeto da mãe persistentemente, continuar se machucando e nutrindo esperança nas mínimas demonstrações e nos pequenos momentos onde parece que tudo pode finalmente ser diferente. porque às vezes, amar é continuar tentando, mesmo quando já se sabe, no fundo, que nada mudará.

Bergman filma o conflito desesperado de forma delicada. ele não julga e não o resolve. é apenas a perspectiva de alguém que observa tudo, com uma câmera que se aproxima devagar, como se pedisse permissão pra assistir. os rostos das personagens se tornam apenas paisagens. as palavras, quando finalmente vêm, elas doem. mas uma dor reprimida e que a princípio, já nasceu cansada.

o que faz esse filme ser um dos meus favoritos é justamente o quão profundamente eu me identifico e me vejo em Eva. assistir a Autumn Sonata foi, pra mim, como escutar uma música que eu já conhecia sem saber disso… como se eu estivesse apenas caminhando entre ruas desconhecidas, sem um mapa, e de repente algo ecoasse de forma tão familiar que eu me sentisse em casa. ele me transportou ao meu passado, me fez voltar à cama daquela menina pequena sofrendo com a confusão e a angústia de não conseguir entender os próprios sentimento. crescendo com a imagem completamente distorcida do que era ser uma mãe. buscando a todo custo, a aprovação e o carinho dela. há uma sensibilidade brutal naquele reencontro das duas… algo que me fez pensar sobre ausências que viram forma de presença, e sobre como muitas relações são feitas de coisas que nunca foram, e provavelmente nunca serão, ditas em voz alta.

“uma mãe e uma filha — que combinação terrível de sentimentos, confusão e destruição. tudo é possível e tudo é feito em nome do amor e da solicitude. as feridas da mãe devem ser passadas para a filha, as decepções da mãe devem ser pagas pela filha, a infelicidade da mãe deve se tornar a infelicidade da filha. é como se o cordão umbilical nunca tivesse sido cortado. a dor da filha é o prazer secreto da mãe.”

Tags: | |

Sobre o Autor

0 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *